Melismas

A matemática dos melismas perfeitos

aula de canto online

aulas de canto

Falar de melismas nos remete, quase que automaticamente, ao virtuosismo. Intuímos um talento inato, quase como um dom. Mas serão, eles, isso mesmo?

Hoje, vamos estudar a natureza dessa técnica e sua relação com a improvisação. Porém, para isso, trabalharemos um pouco a matemática que envolve este tema.

Ao final desta matéria, você estará apto a utiliza-los com desenvoltura e propriedade. Além de, claro, conhecer sua origem e história. Vamos juntos?

Um pouco de História

A história dos melismas não é nova. Inclusive, ela perde-se e mescla-se coma própria história do canto.

Justamente por isso seu nome é tão forte. μέλισμα — o termo em grego — não quer dizer outra coisa senão “canto”.

Torna-se quase impossível dizer “foi neste ano” ou “foi aqui” que tudo começou. Contudo podemos nos valer do apoio da História.

Como esta ciência lida com fatos e provas, falemos um pouco de documentos. E, aqui, não podemos não tratar dos tetragramas: os ancestrais das partituras.

O primeiro contato documentado

Quando a música ocidental foi padronizada, na Idade Média, assumiu-se a transcrição musical em papel. Por meio dela, qualquer pessoa poderia cantar uma música, conhecendo-a ou não.

A mesma lógica permanece até hoje, na transcrição musical moderna. A diferença, naquele tempo, repousava nos tetragramas e seus neumas: os símbolos que representavam as notas.

Como foi Gregório Magno o responsável pelo sistema, chamamos aquele estilo de “gregoriano”. Correspondia ao canto monástico e litúrgico católico.

Tendo acesso a antigos tetragramas, podemos ver o uso frequente de melismas, nos cantos sacros. A isso devemos a falsa impressão de que tudo começou com o cantochão.

Ledo engano, se posso dizer.

Na verdade, os melismas vêm de muito antes do gregoriano. E mesmo na tradição musical e de canto eclesiástico. Ouso afirmar — com certeza — que o canto gregoriano diminuiu a música da época.

E não confie em mim. Não é necessário. Afinal hoje já somos capazes de reconstruir o canto cristão pré-gregoriano. Costuma-se nomeá-lo “canto templário”.

O canto templário, com grave influência da música oriental, brincava com os melismas em níveis assombrosos. A experiência é ímpar, e vou compartilhar contigo:

Esta peça nada mais é do que a oração católica “Salve Rainha”. No entanto corresponde a uma execução muito próxima — senão plenamente fiel — de como era cantada antes do gregoriano.

Suba o som. De verdade. Ouça os guturais de fundo. Fixe-se no coral de tenores, executando a melodia principal. Especialmente, preste atenção aos finais de frases, cheios de melismas belíssimos.

Tome um minuto. Seguimos depois de você experimentar toda a magnitude da obra, executada pelo grupo “Ensemble Organum”.

A inserção no canto gregoriano

Ao ouvir “Salve Regina”, percebeu as influências de outros povos?

Inegavelmente, temos um universo pleno de toda a música antiga. Os melismas, embora pensados e praticados por europeus, trazem muito de muitos cantos do mundo.

Há a indiscutível presença de escalas musicais árabes. Há, também, influência hindu. As vozes, inclusive, buscam imitar cítaras, tão naturais da Índia e regiões cercanas.

Mesmo a música do extremo-oriente, chinesa e japonesa, pode ser sentida de leve. Não é magnífico?

E o que tiramos disto? É simples:

Embora muito se diga, os melismas não “nasceram” com o gregoriano. Tampouco foi a “colonização europeia” que os ensinou aos demais povos. Tudo bobagem. Juro!

Foi o absurdo oposto. A música mundial é o que é: uma força transformadora e expansiva, imparável. As trocas culturais, aculturações e enculturações fizeram os melismas chegarem ao gregoriano.

Mais tarde, com as colonizações do Novo Mundo ocidental, as Américas também tiveram acesso ao melismas.

E, nisso das Américas, ainda temos a aculturação forçada pela escravidão dos povos africanos. E, obviamente, eles também possuíam seus melismas.

O novo advento dos melismas

Ainda insistindo na história dos melismas, temos os tempos próximos. Mais especificamente, a aculturação negra nos Estados Unidos, durante e depois da escravidão.

Com a cristianização dos povos africanos e afrodescentes, nasceu o Gospel. E, como é de se esperar, o canto recebeu toda a bagagem trazida nos navios de sequestro.

Ali, nasceu a experiência apaixonante e emotiva, que hoje conhecemos. A união de duas ou mais culturas na produção de uma nova. Ela, toda cheia de melismas, que deliciam o espírito.

Em nossos dias, o gospel foi responsável por moldar o POP e a Black Music. Justamente por isso Beyoncé, Mariah Carrey, Whitney Houston, Alicia Keys são sinônimos de melismas.

A natureza dos melismas

Deixando a história um pouco de lado, melismas são ornamentos vocais empregados em alguns estilos musicais. Atualmente, os principais são o Gospe, POPl e a Black Music de forma geral, como há pouco falamos.

Por definição, melismas consistem em progressões de notas executadas sobre a mesma sílaba da música. Não há limite mínimo ou máximo de notas ou duração. Importa a variação de frequências.

Contudo é importante ter em mente que melismas e apogiatura não são a mesma coisa. Os melismas distinguem-se por todas as notas serem produzidas sobre uma única sílaba.

Melismas e o vibrato: uma união indissolúvel

Melismas lidam com mudanças constantes e rápidas entre notas. Justamente por isso o vibrato vocal entra como um par perfeito.

Valendo-se de respiração adequada e empregando bons vibratos, a afinação torna-se mais simples.

E, falando em afinação, podemos defini-la como um dos grandes obstáculos dos melismas. Mais do que pura técnica mecânica, há toda uma lógica para cantar as notas certas.

Porém, antes de cairmos nessa faceta matemática dos melismas, vamos assimilar por completo a prática. E, para tal, nada melhor que exemplos práticos de grandes nomes da música.

Vem comigo!

Exemplos de grandes nomes da música

Saber a definição é interessante. O mesmo vale para o conhecimento sobre os suportes para os melismas. Mas nada ilustra tanto essa mágica do canto quanto vê-la em ação.

Por isso, assista a alguns clipes de cantores renomados usando e abusando de melismas incríveis.

E, falando de grandes nomes dos melismas, não poderíamos não mencionar a imensa Aretha Franklin. Comecemos, portanto, com ela:

Aqui, temos um pout-pourri de inacreditáveis melismas executados por Aretha. Confesse: são de arrepiar até a alma, não é mesmo?

Franklin, como se brincando, une toda a cultura do belting gospel com um vibrato matador. Ainda, em muitos casos, nota-se uma certa aplicação de drive vocal durante seus melismas.

Vejamos mais um par de cenas, com exemplos e grandes execuções. Fará bem para seus estudos. Tanto em entendimento quanto em motivação. Pode apostar:

Lindo, não? Diga se não é isso que busca. Tenho certeza que sim. Por isso é tão importante estudar os fundamentos dos melismas. E, sem mais delongas, o faremos, a partir de aqui.

A tão prometida matemática dos melismas

Eu poderia ter começado tudo por aqui? Poderia. Mas deveria? Conte-me, você, nos comentários. Conte se não foi maravilhoso conhecer a história dos melismas.

Conte como os exemplos trazidos mexem com seu coração e sua alma. São geniais. Inspiradores. Nos motivam a buscar mais e mais. E esse foi o objetivo.

Tudo porque os melismas têm uma relação tão íntima com o canto universal que não podemos deixar passar. Tampouco podemos continuar repetindo a história incorreta, contada por aí.

Mas, deste ponto em diante, faremos o trabalho prático. Conversaremos sobre um tema um pouco “chato”, para cantores. Ao menos de modo geral. Falaremos de teoria musical.

Muita gente crê que teoria é para instrumentistas. Mas pergunto: o que somos, senão instrumentistas da voz? Estudar a lógica e a matemática é nossa obrigação também.

Assim, mantenha a mente aberta e a atenção focada. Tudo pode parecer latim, de início. Mas o tema dividirá o mundo de seus melismas, tornando você expert no assunto.

As dozes notas das escalas musicais

Escalas musicais são tema recorrente em tudo que trate de música. Você, provavelmente, já ouviu falar delas ou já as estudou. E isso é ótimo!

Entretanto, se não for o caso, será maravilhoso que se renda a este tema tão grave e importante para os melismas. Escalas musicais definem se seus melismas serão perfeitos.

Ocorre o seguinte: temos, na música moderna, doze notas. Elas se reproduzem mais agudas (finas) ou mais graves (grossas), mas permanecem sempre sendo doze.

Em menos termos, temos:

Dó — Ré — Mi — Fá — Sol — Lá — Si e, novamente, Dó etc.

Estas são as notas principais. Todavia, além delas, ainda temos os chamados acidentes musicais: os bemóis e sustenidos. A saber:

Dó sustenido — Ré sustenido — Fá sustenido — Sol sustenido — Lá sustenido

Ou, ainda:

Ré bemol — Mi bemol — Sol bemol — Lá bemol — Si bemol

Sendo, sustenidos e bemóis, representações distintas para a mesma sonoridade. E, somando sete notas com cinco acidentes, temos doze notas distintas. É com elas que trabalhamos.

Intervalos musicais

Quando colocamos os melismas na conversa, nasce a necessidade de entender os intervalos. Eles se baseiam nas doze notas, mas criam toda um lógica com elas.

Os intervalos musicais buscam harmonia entre as notas. Criam sequências prazerosas e funcionais, na música. Os melismas recorrem aos intervalos para que a sonoridade seja bonita.

Acontece que, sempre que relacionamos notas diferentes, caímos nos intervalos. São os intervalos que geram e organizam as diferentes escalas.

Escalas, para não falar japonês, são regras matemáticas. Exatamente como “escadas”, que é o significado de seus nomes. A progressão é planejada, para que soe bem. E funciona.

Querendo economizar nosso tempo, convido a uma série de leituras de base. Encontramos um blog que tratou o tema de um jeito excepcional. Será maravilhoso você visita-lo. Veja só:

Para entender os intervalos, leia a matéria do Dicas de Violão sobre escalas musicais. Tudo foi tratado com tanto carinho e profundidade que redunda repetirmos tudo, aqui.

No entanto, como sua intenção é conhecer a matemática dos melismas, sigamos no assunto. Vamos, agora, falar da relação entre escalas, intervalos e notas na produção vocal dos melismas.

As escalas cruciais para execução de melismas

Toda música possui um tom, maior ou menor. Trata-se da nota — ou acorde — que governa toda a harmonia. A melodia nasce dela, e a respeita durante toda a canção.

Sabendo o tom de uma música, e reconhecendo a progressão, podemos identificar quais notas estão ou não presentes nela. E, também, as que podem ser executadas.

Justamente por isso é tão determinante conhecer, compreender e saber as escalas musicais. No entanto não necessariamente todas.

Há, na execução de melismas, cinco escalas que devemos ter de memória. São elas: maior natural, menor, menor harmônica e pentatônica.

Para músicas mais alegres — ou menos melancólicas —, a escala maior natural funciona bastante bem.

Para melismas em uma canção em tom de Dó, podemos explorar todas as sete notas da escala maior natural da nota.

Todavia, quando há canções mais melancólicas, poderá ser necessário servir-se de uma das variações da escala menor, que apontamos há pouco.

E não tem mágica: deve-se estudar a melodia da música, relacionando as notas presentes com as escalas. Fazendo isso, torna-se possível saber qual escala utilizar nos melismas.

Eu sei: parece chato e cansativo. Porém é importante saber que, realizando o processo correto, os melismas têm mais chance de soarem perfeitos.

Além disso, com a prática, o ouvido cria intimidade com as sonoridades. Essa intimidade permite que cantores experientes improvisem com mais acertos. E isso é ótimo!

Servindo-se da pentatônica como um atalho para os melismas

Ao iniciarmos o canto com melismas, pode ser complicado explorar sequências muito ricas. Por isso uma alternativa interessante são as escalas pentatônicas.

Elas estão apontadas, também, no material de suporte, que relacionamos. E é de extrema importância que você o consuma, tudo bem?

As pentatônicas (maior e menor) possuem menos notas que as demais. Desse modo, há a possibilidade de memorizar menos conteúdo. Isso facilita e dá segurança, no início dos treinos.

No mais, pentatônicas são riquíssimas, apesar de simples. No Blues, Jazz e vários outros estilos, elas combinam tão bem que parecem ideais.

Assim, lembre-se sempre de experimentar as pentatônicas em seus melismas. Garanto que você não irá se arrepender.

Apenas revisando a matemática dos melismas

Como o assunto ficou extenso, vamos sintetizar todo o dito até agora sobre a matemática dos melismas. Desse jeito, a compreensão fica mais simples. Vamos juntos?

Primeiro, apontamos a urgência em estudar e treinar respiração e vibrato. Definitivamente, torna-se impossível alcançar bons melismas sem estes dois elementos.

Fazendo isso, é hora de estudar o que chamamos da matemática dos melismas: conhecer, compreender e praticar o cálculo das escalas.

Chega, então, o momento de debruçar-se sobre a canção na qual se quer inserir melismas. Será necessário, nesta etapa, identificar tonalidade, harmonia e adequação dos melismas com a escala predominante na canção.

Por fim, o óbvio: ensaios, treinos e mais ensaios. É nesta etapa que você atingirá intimidade com as notas. Aprenderá, desse modo, como produzir melismas justos e belíssimos mesmo na improvisação.

Ah! E, como de costume, fica uma dica importante: para acompanhar seu progresso e verificar os resultados, conte sempre com um gravador.

Pode ser o app do seu celular mesmo. Sem problemas. Importa que você ouça como soa. Fazendo isso, poderá reconhecer carências e corrigir qualquer dificuldade.

Agora, mãos à obra! Leia este material mais uma ou duas vezes. Busque compreender direito o material de suporte, intervalos e escalas. Depois, conte-nos como está se saindo.

E, caso alguma dúvida tenha permanecido, tudo bem: estamos aqui para te ajudar. Basta entrar em contato conosco. Será um prazer te ajudar!

Volte sempre, colega de canto! Com regularidade, traremos matérias quentinhas, produzidas com nosso coração especialmente para você!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *